A Balada da Poeira e do Enxofre

Uma História para Aquecer Ossos Frios

Puxem mais para perto, seus fiapos de gente. O fogo não vai morder, e esta noite tem dentes mais afiados que qualquer fogueira. Estão com frio? Accidenti, claro que estão. Ossos pequenos sentem mais o vento que assobia por estas bandas. Querem uma história, é? Já estou a ver. Cansaram-se dos contos de santos com auréolas imaculadas e de cavaleiros que nunca sujam as botas. Querem uma história de verdade.

(Uma risada seca, como lenha a estalar.)

Uma história de verdade… Che palle. As histórias de verdade não têm heróis, miúdos. Só têm canalhas, sarilhos e mentiras velhas que já ninguém se dá ao trabalho de desmentir. Mas se é isso que querem para aquecer o sangue, quem sou eu para negar? Afinal, o que é a vida senão uma história mal contada? A minha, então, é um épico de trapalhadas. Começa com um nome que é uma piada e acaba num pacto que é uma sentença. Começa num buraco no fim do mundo, um lugar que até o Inferno cospe de volta. Começa em Plutônia.

A Teia dos Fios de Sereno

Já ouviram falar dos Panteganos? Sim, nós mesmos. Os que se escondem nas sombras das cidades, que conhecem as rotas secretas dos esgotos e que, dizem, vendiam a própria mãe por um punhado de petechins. A minha gente. Mas a minha família… nós éramos diferentes. Tínhamos um nome poético, vejam só: os Fios de Sereno. Lindo, não é? Soa a tecelões de mantos de fada, a artesãos que apanham o orvalho da manhã para bordar a seda. Que grande cazzata. A única coisa que tecíamos era a nossa própria desgraça, e os únicos fios que tínhamos eram as correntes da nossa maldição.

O nosso lar era o coração podre do Reino, o umbigo do mundo que deu para o torto: as ruínas de Plutônia. Não as ruínas pitorescas que os bardos cantam, com hera a cobrir colunas de mármore. Imaginem um esqueleto de cidade a arder lentamente há mil anos. O ar cheira a enxofre e a arrependimento, um fedor que se entranha na alma. O chão está sempre quente, coberto por uma camada de cinza fina que se levanta como fantasmas a cada passo. Às vezes, o vento traz um som distante, uma espécie de grasnido desesperado que gela o sangue. É o ganso, dizem os velhos. O Ganso Terrível e a sua ninhada infernal, a reinar sobre o seu domínio de desespero cacofónico.  

E no centro de toda essa miséria, no coração do que fora o Capitólio Draconiano, há uma ferida. Não um portão de ferro forjado com crânios e demónios. É pior. É uma fissura no ar, uma mancha trémula que distorce a luz, como o calor que sobe do asfalto num dia de verão. De lá, emana um calor constante, um zumbido baixo que faz vibrar os dentes e sussurros que prometem tudo o que nunca terão. É o Portão Eterno, uma das muitas bocas do Inferno. E a minha família, os Fios de Sereno, era a rolha nessa garrafa de demónios. Éramos os guardiões. Uma piada cósmica, não acham? Panteganos, os mestres da fuga, presos a um único lugar por toda a eternidade.  

A Grande Mentira e a Verdade Amarga da Queda

“Mas porquê?”, perguntam vocês, com esses olhinhos redondos e curiosos. “Que mal fizeram para merecer tal fado?” Ah, aí é que a história fica boa. Aí é que a mentira se veste de gala e a verdade fica nua e cheia de cicatrizes.

A versão oficial, a que está escrita nas crónicas empoeiradas e que os barões barrigudos contam aos filhos para os assustar, é uma bela peça de teatro. Diz que o meu povo, os magos Panteganos de Plutônia, eram arrogantes. Que, na sua soberba, tentaram domar o poder do Inferno para si, que fizeram um ritual que correu horrivelmente mal e que a cidade pagou o preço pela sua ambição. A Queda de Plutônia, dizem eles, foi culpa nossa. E a nossa vigília eterna? Uma penitência justa. Uma forma de pagarmos pelo nosso pecado, geração após geração.  

(Cuspo para o lado, para dentro das chamas.)

Agora, a verdade. A verdade é mais suja e não rima tão bem. Plutônia era a capital do Império Draconiano, e o último dos seus imperadores era um homem cuja arrogância faria o sol corar. Não lhe bastava o mundo dos homens; ele queria os segredos do Inferno. Os meus antepassados, os conselheiros Panteganos, avisaram-no. “Não se brinca com fogo eterno”, disseram eles. “Há portas que não devem ser abertas”. Mas um imperador não ouve conselhos, só ouve o eco da sua própria voz. Ele forçou o ritual. Ele fez o pacto. E quando o diabo veio cobrar a conta, o chão de Plutônia abriu-se, engolindo palácios e templos numa erupção de fogo e escuridão. A Queda não foi um acidente. Foi uma cobrança de dívidas.  

E nós? Nós fomos os bodes expiatórios perfeitos. Os forasteiros, os que lidavam com artes estranhas. Era fácil culpar-nos. O Império precisava de um culpado para não admitir a sua própria estupidez monumental. E assim, os que tentaram impedir o desastre foram condenados a vigiá-lo para sempre. A nossa punição não é justiça; é a última linha de uma mentira de mil anos, escrita com o sangue do meu povo.  

O Sussurro do Diabo

Cresci naquela poeira. O meu berço foi uma ruína, a minha canção de embalar era o zumbido do Portão. A minha vida estava traçada: nascer, vigiar, morrer. E depois, o meu fantasma continuaria a vigiar. Uma perspetiva de futuro de fazer inveja a um morto. Até que um dia, ele apareceu.

Não era um monstro de garras e chifres flamejantes. Era um Malebranche, um dos diabos que, segundo as lendas, se fartaram do Inferno e subiram por aquele mesmo portão, numa espécie de “Grande Recusa”. Este chamava-se Ciacco. Tinha a pele da cor do crepúsculo, com tons de vermelho e negro, e uns chifres pequenos e polidos que mal se viam no seu cabelo escuro. Falava com uma voz suave, uma  

Hellvoice” que parecia mel misturado com vinho velho. Ele não me ofereceu riquezas, nem poder, nem a alma de inimigos. Ofereceu-me algo muito mais perigoso: uma escolha.  

Ele sentou-se na beira de uma coluna partida, indiferente ao calor que emanava do Portão, e falou-me do Reino de Taglia. Descreveu o sabor do vinho de verdade, não da água morna e sulfurosa que eu bebia. Falou do som de uma taverna a abarrotar, da música, das gargalhadas, da emoção de uma boa Botte da Orbi onde se resolvem disputas com os punhos e se acaba a beber com o adversário. Falou da camaradagem de uma banda de canalhas, de dormir sob as estrelas, do cheiro da estrada depois da chuva. Ele não me tentou com o pecado; tentou-me com a vida.

Estás a guardar uma porta aberta”, disse ele, com um sorriso triste. “És a guarda de uma prisão que já não tem prisioneiros. Eles já saíram todos. Só tu ficaste para trás”.

E, pela primeira vez, a minha lealdade, o meu fardo, o meu legado… tudo me pareceu um embuste. Uma piada de mau gosto. Naquela noite, enquanto a minha família dormia o sono inquieto dos condenados, eu virei as costas ao Portão e caminhei para a escuridão. Pela primeira vez, não olhei para trás.

Pela Talha! Uma Vida de Sarilhos

Pela Talha! A liberdade tem um sabor estranho. A princípio, sabe a pânico. Depois, a lama. E, eventualmente, a vinho barato e a guisado duvidoso. Tornei-me uma canalha, uma entre muitas. Aprendi a linguagem das ruas, o valor de um equipamento que não seja de má qualidade (coisa rara) e a desconfiar de qualquer trabalho que parecesse fácil. Juntei-me a uma banda. Roubámos uns nobres, fomos enganados por uns camponeses, fugimos dos Agentes da Coroa mais vezes do que consigo contar e meti-me em mais zaragatas do que há santos no Calendário. Vi o Reino. Vi as torres de Tarantasia, os canais de Vortiga, as colinas de Cuccagna. Vivi.  

Mas a corrente que deixei para trás era longa. A maldição não estava em Plutônia; estava no meu sangue. Tornei-me uma Marcada. Não com um sinal visível para os outros, mas com um para mim. Todas as noites, os pesadelos vinham. Sonhava com o Portão escancarado, com os horrores que se escapavam. Via os grasnidos dos Gansos Infernais a ecoar pelas planícies, via os Legionários-Carcaça a marchar para fora das ruínas, a exigir o seu pedágio de almas com um grito eterno de “Um petechin!”. Em cada espelho, em cada poça de água, o meu reflexo por vezes mostrava uma caveira sobreposta ao meu rosto, a Marca da Morte a lembrar-me da minha falha. A liberdade que Ciacco me prometeu era uma ilusão. Eu não estava a viver; estava a fugir. E o som das correntes arrastava-se sempre atrás de mim.  

Um Novo Acordo, a Mesma Corrente

Não aguentei. A culpa é um veneno que queima mais devagar que o enxofre, mas queima mais fundo. Eu tinha de voltar ao meu posto. Mas voltar a Plutônia? Voltar àquela cela de cinza e desespero? Nunca. Tinha de haver outra maneira. E no mundo dos canalhas, quando se precisa de uma solução impossível, procura-se alguém com ainda menos escrúpulos do que nós. Procura-se um demónio.

Mas desta vez, não procurei um rebelde sonhador como Ciacco. Procurei um gestor. Um executivo. Um Belphegore. Encontrei-o num escritório luxuoso em Vortiga, disfarçado de banqueiro com um fato impecável e um sorriso que não chegava aos olhos. Não havia fogo nem enxofre, apenas o cheiro a ouro e a contratos com letras pequenas. Ele não queria a minha alma. A “Finança Infernal”, como ele lhe chamava, lida com ativos mais tangíveis. O Portão, para ele, não era uma fonte de mal cósmico, mas uma fuga de recursos não controlada, uma falha de segurança na fronteira.  

Fizemos um acordo. Um contrato. Eu retomo a minha vigília, mas não em Plutônia. O meu posto agora é o Reino inteiro. Continuo a ser uma canalha, a aceitar trabalhos. Mas os trabalhos vêm dele. Recuperar um artefacto que um diabo menor “perdeu”. Sabotar a operação de um culto rival. Levar um nobre à ruína para que a sua linhagem, amaldiçoada por um pacto antigo, perca o poder. Cada missão, cada punhalada nas costas, cada golpe bem-sucedido, de alguma forma, reforça o selo do Portão. Sou uma guarda outra vez, mas a minha masmorra é o mundo, e as minhas ferramentas são a adaga e a mentira.

(Elara atiça o fogo com um pau, e as brasas sobem como estrelas zangadas.)

E é assim que a minha história acaba, miúdos. Ou melhor, é aqui que ela está agora. Troquei uma corrente por outra, um mestre por um mais astuto. Tenho a minha liberdade, sim. A liberdade de vaguear, de lutar, de beber. Mas cada passo que dou é guiado pela mão invisível dele. Cada moeda que ganho está manchada pelo seu propósito.

(Ela olha para as crianças, os seus olhos escuros a refletir as chamas, e um sorriso torto, desprovido de alegria, cruza-lhe o rosto.)

Portanto, lembrem-se desta história quando estiverem sozinhos no escuro. No Reino, a liberdade é só uma coleira mais comprida. A gente acha que está a fugir da teia, mas só está a trocar de aranha. Agora, durmam. Amanhã é outro dia para tentar não ficar preso.

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Thais Franco
Thais Franco
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